Não era a primeira vez de Nyx num palco daqueles, não era nem sequer a primeira vez que ela via todos os procedimentos ao redor da preparação de uma turnê, mas existia algo de novo e surpreendente e inesperado em tudo aquilo que todos os anos da sua infância não lhe prepararam para. Tinha uma energia pulsando dentro de si que crescia a cada segundo que se aproximava da sua hora de subir do palco, não tinha conseguido parar quieta durante o dia, brincava constantemente com a corda extra de guitarra que usava como pulseira numa tentativa de se acalmar. Agora que a hora da verdade estava tão perto, apenas a algumas bandas de distância, seu lábio estava quase em carne viva em expectativa.

Já estava vestida e pronta, a roupa que tinha separado pensando em combinar com os amigos. Sua banda estava por ai, sabia que eles iam aparecer quando a banda anterior a sua estivesse no palco como tinham combinado, podia contar com eles mas naquele momento era só ela no sofá cercada de desconhecidos e tentando lidar com seus nervos. E então, como se tivesse sentido do outro lado do mundo, ouviu a voz do seu pai. Por um segundo achou que era um sonho até que lembrou que a música era o toque que tinha colocado no celular pra quando ele ligasse, a canção de ninar que ele cantava pra ela e um dos poucos sons que seu celular fazia no geral.

— Hey, kiddo. — a voz era quase mais conhecida do que a própria e o suficiente pra trazer um sorriso pro rosto de uma Nykteria de qualquer idade, mesmo a que estava meio encolhida no sofá evitando as pessoas ao redor.

— Oi velhote. — Seu pai tinha meio que um superpoder de adivinhar como ela estava se sentindo mesmo que ela tentasse fingir, mas ainda assim ela usava o sorriso pra tentar mascarar o nervosismo claro na própria voz.

— Já se apresentou? Como foi? — Ver a voz interessada dele quase lhe fazia se arrepender de ter o deixado de fora dessa parte da sua vida, queria ter o homem ali vendo aquilo e sabia que com a influência dele, com certeza conseguiria. Mas tinha algo a provar, pra si mesma mais do que pra qualquer outra pessoa.

— Não, falta umas três bandas pra minha. Acho que eu vi o tio Dan lá fora, nem sei como vou cumprimentar ele. Será que ele vai achar esquisito se eu fingir que não conheço ele? Tipo, sei que tem muita gente aqui que é da indústria, mas eu to, você sabe… — Ela ainda não conseguia explicar direito aquela parte nem pra si mesma.

— Sei… — Nyx queria ter o mesmo superpoder que seu pai porque tinha algo no tom dele que ela não conseguia identificar e só podia esperar que não fosse decepção. — O Ben não vai ligar, ele entende. E você vai fazer um show do caralho, eu tenho certeza. Vou pedir pra ele gravar e mandar pra mim. Porra, é pra fazer o chão tremer, ta me ouvindo? — Não adiantava lembrar pra ele que ela não tocava rock, só conseguia rir naquela situação. Meio que sabia que ele tava falando aquilo num nível espiritual, entendia.

— Pode deixar, você vai sentir o som que to fazendo no primeiro show da minha primeira turnê dai. Que milagre é esse você acordado essa hora da manhã? É manhã ai né? — Lembrou de repente que fuso horário existia, algo que seu jetlag não tinha lhe deixado esquecer nas últimas horas.

— Eu to é indo dormir agora, tava num churrasco montessoriano. Melhor nem perguntar o que é. Bom show, princesa, eu vou de cama.

E assim, num passe de mágica, do mesmo jeito que tinha surgido seu pai sumiu, a ligação desligando antes mesmo que ela pudesse dar xau, conseguindo só revirar os olhos e sorrir com a saída dramática. A ligação pelo menos tinha sido efetiva pois tinha lhe lembrado pra que ela estava ali… Tinha que fazer o chão tremer debaixo da sua guitarra, era uma responsabilidade de família.